Ações como proteção contra a inflação: por que nem todo equity protege igual
Existe uma ideia bastante difundida de que, diante da inflação, basta “estar na bolsa” para ficar protegido. A análise do Raul mostra que a realidade é mais sutil: as ações realmente têm um efeito protetivo relevante contra a corrosão do dinheiro, mas esse efeito não se distribui de forma igual entre as empresas. Como ele resume de forma direta, nem todo equity tem proteção contra a inflação — embora ações possam ter, sim, um efeito protetivo. A tese deste artigo é justamente essa: entender por que algumas companhias absorvem a inflação com facilidade e outras são justamente aquelas que quebram no processo.
Por que as ações se reajustam à inflação no longo prazo
O ponto de partida é uma observação que costuma passar despercebida: as ações, no geral, se reajustam pela inflação de um jeito muito rápido quando o cenário é caótico. A lógica é intuitiva quando se olha de perto. São as próprias empresas — ao subir os preços de seus produtos — que geram o número que depois o IBGE mede. Em outras palavras, o reajuste de preços das principais companhias de um país é a matéria-prima da inflação oficial.
O exemplo mais didático citado pelo Raul é o da bolsa da Argentina. Em 2022, ele chegou a produzir um material mostrando que o índice acionário argentino havia subido acima da própria inflação. Muita gente apostava que a bolsa argentina não entregaria prêmio real; ela entregou. O mecanismo é simples: se as empresas listadas não repassassem a inflação para seus preços, elas ficariam artificialmente baratas — e outros empresários simplesmente comprariam essas companhias, empurrando as cotações para cima.
A ressalva importante é o horizonte de tempo. No dia zero, você não percebe a bolsa acompanhando a inflação. O ajuste não é instantâneo nem linear no curtíssimo prazo. É no longo prazo que a proteção se materializa. Por isso o raciocínio se aplica melhor a quem carrega ações com paciência, e não a quem espera blindagem imediata.

O divisor de águas: capacidade de repasse de preço
Se as ações protegem no agregado, o que separa as boas das ruins nesse quesito é a velocidade e a facilidade com que cada empresa consegue repassar o aumento de custos para o cliente. E aqui os setores se comportam de maneira radicalmente diferente.
A indústria de alimentos: balizadora da inflação
As empresas de alimentos estão entre as que conseguem transferir a inflação em um período muito rápido — até porque elas mesmas são balizadoras da inflação. Se o milho sobe 40%, no dia seguinte o Doritos no supermercado já vem custando mais. O mesmo vale para o molho de tomate e o ketchup: uma safra ruim de tomate se traduz quase imediatamente em prateleira reajustada. O azeite de oliva é outro caso emblemático — a seca na Espanha e em Portugal disparou o preço, e esse repasse chega ao consumidor de imediato.
A consequência prática é decisiva: quando uma empresa consegue fazer transferência de preço muito rápida, ela costuma ter menor chance de falência ou de perder muito dinheiro no período inflacionário. A capacidade de repasse é, na prática, um amortecedor.
O varejo e a intermediação: onde a porca tosse o rabo
No outro extremo está a intermediação — nas palavras do Raul, “esse é onde a porca tosse o rabo”. Pense em quem importa fogões ou ar-condicionado da China para revender aqui. Se comprou com o dólar em um patamar e a moeda subiu, até pode ganhar. Mas se o câmbio se move contra ele e o concorrente comprou mais barato, ele não consegue formar preço: vende no prejuízo e ainda precisa lidar com a antecipação de recebíveis. Por isso, olhando para o varejo, você o encontra quase sempre em situação apertada — a dificuldade de repassar preço é estrutural nesse elo da cadeia.
Tecnologia e software: travados por contrato
Há ainda um terceiro grupo, o das empresas de tecnologia e software, que sofrem por um motivo específico: os contratos formalizados. Quando você paga um ou dois anos de assinatura de um serviço de armazenamento em nuvem, a empresa fica obrigada a entregar aquele serviço pelo prazo contratado, mesmo que seu custo suba 70% no meio do caminho. A licença de um sistema com cinco anos de atualização prometida terá de entregar esses cinco anos. O contrato de longo prazo, que em condições normais dá previsibilidade, vira uma armadilha em cenário inflacionário, porque congela a receita enquanto os custos correm.

Verticalização e dívida prefixada: dois escudos concretos
O princípio geral que o Raul propõe para separar quem sofre de quem resiste é a verticalização: quanto mais uma empresa domina de ponta a ponta a sua cadeia, menos ela sofre com a inflação. Quem controla mais etapas da produção depende menos de repasses de fornecedores e de flutuações que não consegue controlar.
O exemplo trazido é a Klabin, que atua verticalizada em sua cadeia. Além disso, entra em cena um segundo mecanismo de proteção pouco lembrado: a dívida prefixada. Parte dos contratos de dívida da empresa foi travada a prefixado, em diferentes momentos, em vez de indexada ao IPCA. Quando a inflação cresce, para empresas endividadas em dívida prefixada isso é favorável, porque a inflação corrói o poder de compra daquele valor devido ao longo do tempo. Ou seja, a inflação, que castiga tantos, pode aliviar quem se financiou de forma prefixada.
Vale a ressalva feita pelo próprio Raul: essa mesma empresa pode sofrer se a taxa de juros ficar gigantesca. A proteção existe, mas não é imune a todos os cenários simultaneamente.
O ponto cego dos bancos: PDD em cenário inflacionário
Se há setores que se beneficiam, há também os que carregam um risco silencioso. Os bancos são o exemplo. Muitos montaram o custo efetivo total de seus contratos de crédito prevendo um cenário em que a inflação não ficaria tão alta. Quando a inflação começa a subir acima do previsto, eles precisam aumentar a PDD — a provisão para devedores duvidosos — e, além disso, começam a “tomar ferro na outra mão”.
O alerta do Raul é contundente: a chance de um banco quebrar quando começa um cenário hiperinflacionário é grande. A carteira de crédito de muitas empresas se deteriora, e algumas quebram por gestão financeira, não necessariamente pela inflação em si. Isso vale inclusive para quem imagina estar protegido em um título de renda fixa emitido por uma instituição frágil — a proteção do papel não vale nada se o emissor não sobrevive. É o mesmo raciocínio que se aplica ao equity: o rótulo “protegido contra a inflação” não substitui a análise da saúde de quem está por trás do ativo.
Setores anticíclicos e utilities: as escolhas resilientes
Diante desse mapa, quais são os caminhos que o Raul aponta como mais resilientes? A resposta começa pelas ações anticíclicas, que num momento assim podem ser compradas em múltiplos não tão agressivos.
O setor de utilities aparece com destaque — saneamento e energia elétrica. A lógica é a previsibilidade: num ambiente inflacionário, há repasse do custo de produção de energia elétrica para o consumidor, o que sustenta a receita dessas empresas. Some-se a isso a estabilidade dos contratos e a dificuldade, no Brasil, de uma companhia do setor perder sua concessão, dada a estrutura das agências reguladoras — só algo muito grave na prestação de serviço provocaria isso. Essa previsibilidade de geração de receita por muito tempo é o que dá resiliência ao setor, com atenção especial ao segmento de distribuição.
Os bancos, curiosamente, aparecem também como possibilidade — mas por uma razão específica: o spread cambial. Instituições que captaram recursos lá atrás a taxas atrativas e conseguem emprestar a taxas ainda maiores lucram com esse descasamento. É o mesmo setor que carrega o risco de PDD citado antes; a leitura depende de qual banco e de qual dinâmica está em jogo.

A lição da década de 70: lucro não é o mesmo que retorno ao acionista
Nenhuma análise sobre ações e inflação estaria completa sem a advertência histórica que o Raul e a equipe trazem. Na década de 70, os Estados Unidos viveram um cenário de inflação muito alta. Durante aquela década, as empresas até tiveram certo lucro — crescimento da ordem de 172% —, mas isso não se converteu em resultado financeiro para o acionista.
O motivo está nos múltiplos. Naquele período, os ativos eram negociados a cerca de 16 vezes lucros. Quando a inflação se combinou com juros persistentemente altos por um longo tempo, a expectativa dos investidores — que são quem faz preço no mercado — desabou. O múltiplo comprimiu de 16 vezes para 7 vezes. Resultado: quem estava posicionado em determinados ativos ficou lateralizado e, considerando uma inflação que teve média em torno de 7% e picos de até 12%, chegou a perder dinheiro em termos reais, dependendo do ativo.
Por que isso importa hoje? Porque o S&P 500 é hoje negociado a cerca de 22 vezes — patamar acima daquele ponto de partida dos anos 70. A reflexão proposta é sóbria: se a inflação persistir e os juros não caírem como o mercado espera, o valuation pode ser jogado de volta para sua média histórica, revelando que o preço que hoje se aceita pagar talvez não corresponda ao valor real. É a inflação funcionando como “água reveladora”.
Conclusão: proteção depende de qual empresa, não apenas de estar na bolsa
A mensagem central que emerge da análise do Raul é que “nem todo equity tem proteção contra a inflação”. No limite, tudo está relacionado à inflação — mas há quem sofra muito mais que os outros. O eixo que organiza esse espectro é a capacidade de repasse de preço e o grau de verticalização: a indústria de alimentos repassa rápido, o varejo e a intermediação apanham, o software fica preso a contratos, os verticalizados e endividados em prefixado se defendem, os bancos carregam risco de PDD, e utilities entregam previsibilidade.
A tentativa de “buscar o cu da mosca” procurando ativos totalmente desligados da inflação não faz sentido. O que faz sentido é entender qual empresa sofre e qual resiste, e lembrar da lição de que lucro contábil crescente não equivale automaticamente a retorno para o acionista quando os múltiplos se comprimem. Analisar antes de posicionar continua sendo o exercício insubstituível.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.