Formas de investir em ações: stock picking, o fim dos fundos de ações e por que os ETFs venceram
Existe uma pergunta que aparece toda vez que a bolsa volta a subir: como uma pessoa comum começa a investir em ações sem precisar de muito dinheiro? A resposta que o Raul defende é pragmática — e passa por entender que não existe apenas uma forma de entrar na renda variável. Existem caminhos com custos, riscos e lógicas muito diferentes entre si. Este artigo dá um passo atrás e organiza esse mapa: o que é o stock picking, por que os fundos de ações tradicionais foram perdendo espaço e como os ETFs passivos se tornaram a porta de entrada mais acessível do mercado.
A tese é simples: hoje você tem tecnologia para se expor a dezenas de empresas pagando pouco. O que mudou não foi a bolsa — foi o custo e a simplicidade de participar dela.
Stock picking: escolher empresa por empresa
O primeiro caminho é o mais comentado e, ao mesmo tempo, o mais exigente. Stock picking, na definição que o Raul usa, é justamente isso: você seleciona empresas específicas e decide como vai investir em cada uma delas. Comprou uma ação do Banco do Brasil (BBAS3)? Isso é stock picking. Comprou uma ação da WEG (WEG)? Também é stock picking.
O ponto central aqui é entender que existem duas mentalidades por trás dessa seleção. Uma é a busca por qualidade: analisar se aquele ativo é realmente bom, se a empresa tem consistência, se o negócio se sustenta ao longo do tempo. Quanto mais qualidade, melhor. A outra é o processo especulativo: comprar a empresa apenas porque você acha que ela vai subir. O Raul é explícito ao dizer que recomenda pouco esse segundo caminho — apostar em movimento de preço é uma coisa; selecionar ativos por fundamento é outra bem diferente.
Stock picking, portanto, não é um atalho. É seleção de ativos, e seleção exige compreender o que você está comprando. Para quem está começando, esse costuma ser o modelo que mais dá trabalho, porque depende de estudo e de critério para separar empresa boa de aposta.

Fundos de ações: por que esse modelo foi perdendo espaço
O segundo caminho, historicamente, era terceirizar a escolha. Em vez de selecionar as empresas você mesmo, você entregava o dinheiro a um gestor profissional — alguém com mais tempo de mercado — e confiava na experiência dele para render alguma coisa. É a mesma lógica que muita gente ainda aplica em fundos imobiliários: colocar a confiança em quem administra.
O Raul é direto ao afirmar que esse modelo, para o pequeno investidor, envelheceu mal. Não é que os fundos de ações tenham deixado de existir — ainda há bilhões alocados neles, muitas vezes por pessoas mais velhas ou por quem nunca teve tempo de estudar o assunto. O problema está na estrutura de custos e na régua usada para medir o resultado.
Primeiro, a taxa. O formato clássico cobra 2% de taxa de administração. Segundo, e mais grave, a taxa de performance: 20% sobre o que passou do CDI. E aqui mora a distorção que o Raul faz questão de apontar. O benchmark — ou seja, o comparador que define se o gestor “acertou” — não era a bolsa de valores. Era o CDI.
Pare para pensar no absurdo: é um fundo que só tem ações, mas que se compara à renda fixa. No exemplo que o Raul usa, se a bolsa rende 100% e o fundo, com ações, rende 80%, o gestor ainda cobra taxa de performance — porque rendeu acima do CDI, mesmo tendo ficado abaixo da própria bolsa. O comparador foi escolhido para facilitar a cobrança, não para medir competência de fato. Por isso o Raul resume que, para o investidor comum, esse formato está cada vez mais em decadência.

ETFs passivos: fazer o que o fundo fazia, por uma fração do custo
É nesse vácuo que entram os ETFs — e é aqui que a lógica muda de patamar. ETFs também são fundos, mas de um tipo diferente: são passivos. Não há um gestor tentando adivinhar o mercado. Alguém definiu uma estratégia clara, e o fundo simplesmente a segue de forma automática.
O exemplo que o Raul usa deixa isso concreto: imagine uma estratégia que investe nas 100 maiores empresas. Quando uma empresa que estava na posição 101 sobe para a 100, o ETF vai lá e compra automaticamente um pedacinho dela. Não há palpite, há regra. E o resultado prático é a diversificação: em vez de comprar uma única ação, você passa a ter exposição a 10, 20, 40 ou 100 empresas de uma só vez.
Isso muda a experiência de quem começa. Uma ação isolada pode oscilar 10%, 20%, 30% num susto. Um ETF com 40 empresas dentro tende a oscilar de forma bem mais suave — 1%, 3% — porque o movimento de uma companhia é diluído pelas outras. Ação, nas palavras do Raul, não precisa ser com susto.
Os ETFs brasileiros que o Raul cita
No Brasil, o mercado já oferece ETFs com estratégias distintas, comprados no mesmo lugar onde você compra ações:
- BOVA11 — o maior ETF do Brasil. Investe nas empresas que compõem o índice Bovespa, algo em torno das 70 a 80 empresas mais negociadas do país. O Raul afirma não gostar muito dele, mas destaca o custo baixíssimo, algo na casa de 0,15% de taxa — uma mixaria.
- NDIV — foca nas empresas mais pagadoras de dividendos. Quanto mais a empresa paga dividendos, mais peso ela ganha dentro do ETF.
- AUVP11 — ETF cuja metodologia o Raul ajudou a construir. Ele separa as empresas por qualidade, com critérios como lucro consistente nos últimos cinco anos, margem boa, dívida controlada e a exclusão de setores que quebram muita empresa, como transporte aéreo e varejo. É descrito como um ETF de perfil mais defensivo, e cobra 0,49% — também uma mixaria.
- Small — investe apenas em empresas pequenas. É o mais arriscado da lista, indicado para uma parcela menor do dinheiro.
Lá fora, o Raul cita o IVV como exemplo de ETF americano — para quem quer começar também com exposição internacional.
O contraste com os fundos tradicionais é gritante. Todos esses ETFs cobram menos de 1% de taxa, e nenhum deles tem taxa de performance. É exatamente o que o fundo fazia lá atrás — diversificar segundo uma estratégia — só que de maneira muito mais barata. E para pesquisar cada um, entender a carteira e a metodologia, o Raul menciona a existência de sites dedicados a comparar ETFs do Brasil.

Por que esses ETFs não distribuem dividendos
Um detalhe que confunde muita gente: os ETFs de acumulação citados pelo Raul não distribuem dividendos. E isso é uma escolha deliberada, não uma falha. Se distribuíssem, você teria que pagar tributação sobre esses proventos — mês a mês, enquanto ainda está na fase de acumular patrimônio.
A lógica do Raul é que, na fase de construção de riqueza, ficar pagando imposto sobre dividendos recorrentes é contraproducente. Ele é enfático ao dizer que os ETFs que distribuem dividendos não são a escolha que recomenda para quem está acumulando, justamente por esse peso tributário. O objetivo da renda variável, afinal, é fazer mais dinheiro no longo prazo — não gerar caixa mensal ainda cedo.
Para o momento em que a pessoa efetivamente quer viver de renda, ou já possui muito patrimônio, o Raul aponta outros instrumentos, como o ARCA — voltado a quem já tem patrimônio elevado — e produtos de renda fixa como o Alpo, onde é possível ir resgatando pagando menos tributo. Ele também menciona o LFTB como uma alternativa parecida com o Alpo. Mas esses são caminhos de uma fase diferente, e não se confundem com os ETFs de acumulação.
O que realmente mudou: acesso barato
A conclusão que amarra tudo é a mesma que abre o artigo. Antigamente, quando os vídeos sobre o tema eram gravados, investir em ações era “coisa de rico”. Hoje, o Raul lembra que qualquer pessoa com R$100 ou R$200 consegue, ao comprar um único ETF, ficar exposta a 40 ou até 50 empresas diferentes de uma vez.
É essa democratização que dá sentido à ordem dos caminhos. O stock picking exige estudo e critério para separar qualidade de especulação. Os fundos de ações tradicionais cobram caro e, muitas vezes, se medem por um comparador que não faz sentido. E os ETFs passivos entregam diversificação, custo baixo e simplicidade — permitindo começar com pouco, sem susto e sem depender de adivinhar o mercado.
Vale reforçar o pano de fundo: renda variável só faz sentido para dinheiro que você não vai precisar no curto prazo. As formas de investir são ferramentas; o horizonte de tempo é o que determina se elas cabem na sua vida.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.