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Poucos conceitos geram tanta confusão em quem começa na renda fixa quanto a ideia de que um título “garantido pelo governo” pode aparecer com preço diferente todos os dias na tela da corretora. O Raul dedica boa parte da sua explicação exatamente a desmontar esse paradoxo. E a tese central é simples de enunciar, mas exige atenção para ser digerida: no Tesouro Prefixado e no Tesouro IPCA+, você conhece o destino final do título, mas o caminho até lá pode ser cheio de oscilações.

Neste artigo vamos aprofundar apenas esses dois títulos e o fenômeno que os conecta — a marcação a mercado. É o tema que, nas próprias palavras do Raul, “a maioria das pessoas novatas do mercado não conseguem entender”. A ideia aqui é organizar essa mecânica de forma que ela finalmente faça sentido.

O ponto de partida: todo título vale R$1.000 no vencimento

Antes de falar de oscilação, é preciso fixar a âncora. O Raul repete uma frase que funciona como pilar de tudo: “Todo título do tesouro que você comprar vai valer exatamente R$1.000 no vencimento”. Essa é a regra de ouro. O preço de compra, seja qual for, é sempre calculado de trás para frente a partir desses R$1.000 finais.

No caso do prefixado, isso significa que a taxa é travada no ato da compra. Você sabe no dia da aplicação exatamente qual será o resultado se levar o título até o fim. O exemplo usado por ele é claro: um título inteiro do Tesouro Prefixado 2029 custa R$709, comprado a uma taxa de 14,53% ao ano, e “no vencimento vai estar valendo exatamente R$1.000”. A diferença entre R$709 e R$1.000 é justamente a rentabilidade contratada — nada mais, nada menos.

É por isso que o prefixado é, conceitualmente, o mais previsível dos títulos: se você respeitar o prazo, o número final é conhecido desde o primeiro dia.

Investidor analisando aplicação em renda fixa no computador
Investidor analisando aplicação em renda fixa no computador

A marcação a mercado: por que o preço muda todo dia

Aqui começa, nas palavras do próprio Raul, “a coisa mais complicada da sua vida”. Vamos com calma, porque o raciocínio é o que separa quem entende de quem apenas se assusta com a tela vermelha.

Imagine que você comprou o título por R$709, com taxa de 14,53% e 30 meses até o vencimento em 1º de janeiro de 2029. Feito o cálculo, esse valor cresce exatamente até R$1.000 na data final. Perfeito. Mas atenção a um detalhe crucial: existe uma diferença entre a taxa Selic do país e a taxa do próprio título prefixado. É a segunda que importa aqui.

Suponha que, no dia seguinte, a taxa do título prefixado mude — de 14,53% para, digamos, 13%. O Tesouro combinou com você entregar R$1.000 no vencimento, e essa promessa não pode ser quebrada. Então o que ele faz? Nas palavras do Raul: “ele vai pegar o preço do seu título e mexer nele para que ele renda o valor combinado”.

Se a taxa cai para 13%, um título comprado ainda por R$709 renderia apenas cerca de R$962 no fim — menos do que os R$1.000 prometidos. Para corrigir, o Tesouro aumenta o preço do seu título de uma vez, levando-o para algo como R$735. O resultado prático: quem já tinha o título vê um ganho imediato na tela.

O inverso também acontece. Se a taxa oferecida sobe, por exemplo, para 18%, o título não pode continuar a R$709, porque a esse preço ele renderia mais que o combinado. Então o Tesouro reduz o preço, mandando-o para algo como R$698, até bater exatamente no valor necessário para chegar aos R$1.000 no vencimento.

A regra que resume tudo, na formulação do Raul: “Se o juro subir, o preço cai. Se o juro cair, o preço sobe. Isso é marcação a mercado.”

Mãos movendo blocos em direções opostas ilustrando a relação inversa entre juro e preço
Mãos movendo blocos em direções opostas ilustrando a relação inversa entre juro e preço

Por que isso só vira problema se você resgatar antes

Este é o ponto que o Raul diz tentar explicar “há anos” e que “sempre dá problema”. A marcação a mercado só se materializa como ganho ou perda real se você vender antes do vencimento.

Se você leva o título até o fim, nada disso importa: você recebe exatamente o que foi combinado no dia da compra. “No vencimento, você tem previsibilidade total”, resume ele. As oscilações do caminho são apenas fotografias diárias de quanto o mercado pagaria por aquele título naquele instante.

O risco aparece quando alguém precisa do dinheiro antes da hora. Como o próprio Raul coloca: você até pode resgatar antes se estiver rendendo mais, mas se estiver rendendo menos e você resgatar, sai com rentabilidade deficitária. Por isso a orientação é direta: quem investe em Tesouro Prefixado ou IPCA+ não deveria contar com resgate antecipado como plano.

Há quem faça o caminho oposto de propósito. O Raul comenta que “tem gente que é especialista nisso pra fazer dinheiro” — operando justamente a queda dos juros para vender títulos valorizados antes do vencimento. Mas isso é uma estratégia ativa e sofisticada, muito distante do investidor que só quer previsibilidade.

O Tesouro IPCA+: proteção do poder de compra

O prefixado tem um calcanhar de Aquiles: se a inflação do período disparar, a taxa fixa contratada pode não dar conta de preservar o valor do seu dinheiro. É para resolver esse problema que existem os títulos híbridos, o Tesouro IPCA+.

A lógica, segundo o Raul, é combinar duas peças. O título “vai te dar o IPCA” — ou seja, a inflação oficial — para “corrigir o valor principal”, e além disso paga uma taxa fixa por cima. O resultado é o que ele chama de ganho real sempre acima da inflação.

Num exemplo simples de IPCA+5%: se a inflação do período for de 1%, o título rende 5% mais 1%, totalizando 6% naquele intervalo. O componente da inflação corrige o valor principal, e a taxa fixa garante que você termine sempre acima dela. É uma proteção do poder de compra — a ideia de que o dinheiro guardado hoje ainda compre o equivalente lá na frente, independentemente do quanto os preços subam.

Vale lembrar que o IPCA+ também está sujeito à marcação a mercado. Ele costuma ter vencimentos longos, às vezes de uma ou duas décadas, o que significa muita oscilação no meio do caminho. Novamente: se os juros futuros sobem, o preço cai; se caem, o preço sobe. E, de novo, isso só vira ganho ou perda se você decidir vender antes.

Família caminhando ao pôr do sol representando planejamento de longo prazo
Família caminhando ao pôr do sol representando planejamento de longo prazo

Quando usar cada um

A escolha entre prefixado e IPCA+ não é sobre qual é “melhor”, e sim sobre qual serve ao seu objetivo. O Raul organiza isso de forma prática.

O prefixado é o título de quem tem uma meta com valor e data definidos. O exemplo que ele dá: você tem um compromisso de precisar de um valor específico numa data específica no futuro, sem grande preocupação com inflação. Como o prefixado entrega exatamente o número contratado no vencimento, ele casa perfeitamente com esse tipo de objetivo — desde que você respeite o prazo.

O IPCA+ é para quem quer proteger o patrimônio da inflação ao longo do tempo. É o título de quem pensa “tenho um destino para o meu futuro e quero garantir que meu poder de compra seja preservado”. Por natureza, é um investimento de horizonte longo.

As versões com cupons semestrais

Tanto o prefixado quanto o IPCA+ existem em versões que pagam cupons de juros semestrais. No caso do prefixado com cupom, o formato é a NTN-F, que, em vez de concentrar tudo no fim, “vai depositar os cupons de juros pra você a cada seis meses”. Isso é útil para quem busca fluxo de renda periódico.

O Raul faz uma ressalva importante para quem ainda está na fase de acumular patrimônio: os cupons semestrais têm desvantagem tributária. Nos primeiros cupons incide a alíquota de 22,5% de imposto, o que ele considera “muito ruim” para quem não precisa daquela renda no momento. A lógica é que o pagamento periódico antecipa a mordida do imposto. Por isso, ele recomenda os cupons apenas para quem já vive de renda; quem está acumulando tende a se sair melhor com a versão sem juros semestrais, que acumula tudo para o vencimento.

Conclusão: previsibilidade no fim, paciência no meio

A grande lição que atravessa toda a explicação do Raul é que Tesouro Prefixado e IPCA+ oferecem previsibilidade total no vencimento, mas exigem entendimento e paciência no meio do caminho. A marcação a mercado não é um defeito nem uma armadilha — é apenas o mecanismo que mantém a promessa dos R$1.000 finais coerente com as taxas de juros que mudam a cada dia.

Quem compreende isso deixa de se assustar com o preço oscilando na tela e passa a fazer a única pergunta que realmente importa: eu pretendo levar este título até o vencimento? Se a resposta é sim, o vaivém diário é irrelevante. Se há chance de precisar do dinheiro antes, aí sim a marcação a mercado se torna um risco concreto que precisa ser respeitado.

Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.

Assista ao vídeo do Raul

Raul Sena

Raul Sena, o Investidor Sardinha, é uma das maiores referências de educação financeira e investimentos do Brasil. Os artigos da Finança Urbana são análises aprofundadas do conteúdo do seu canal.