A fundação antes das ações: economizar, reserva de emergência bem calculada e a regra dos 25%
Existe uma ordem de acontecimentos que quase todo iniciante ignora quando decide investir. A pergunta que costuma abrir a conversa é “qual ação eu compro?”, mas o Raul é enfático em outro ponto: ações não são um bom investimento para quem ainda não tem a base resolvida. Antes de comprar sequer uma ação na sua conta, é preciso construir aquilo que ele chama de fundação — a parte invisível, que não rende post nem dá emoção, mas que sustenta tudo o que vem depois.
Este artigo trata exatamente disso: os pré-requisitos financeiros que precisam estar de pé antes de você se expor à renda variável. Não vamos falar de como escolher ativos nem da mecânica dos títulos — isso pertence a outras etapas. Aqui, o foco é a fundação.
Por que economizar vem antes de investir
A tese é direta: não dá para começar a investir em ações sem saber economizar. Parece óbvio, mas o raciocínio por trás é o que importa. Imagine que você investiu mil reais em ações, elas caíram, e nesse meio-tempo você foi demitido ou surgiu uma emergência. Se você ainda não domina o hábito de economizar, a pergunta é inevitável: que dinheiro você vai usar para atravessar esse período?
O Raul faz uma distinção importante: a palavra “economizar” é, na verdade, um atalho para algo maior — se organizar financeiramente. Isso significa ter noção, pelo menos semanal, de para onde está indo o seu dinheiro. Quem não consegue fazer esse acompanhamento básico ainda não deveria se expor a ações, porque elas oscilam diariamente. Sobe, cai, e no momento em que você precisar daquele dinheiro ele pode simplesmente não estar disponível no valor que você esperava.
Dinheiro para ação é dinheiro que você não vai precisar. Não nos próximos meses, mas nos próximos anos. Por isso a organização financeira não é um detalhe: é a condição que garante que o dinheiro investido possa, de fato, ficar parado esperando o tempo trabalhar a favor.

A reserva de emergência que quase todo mundo calcula errado
Aqui está talvez o ponto mais mal explicado no ambiente de investimentos, segundo o Raul. A fórmula que circula por aí manda pegar todo o seu custo mensal e multiplicar por 6, 10 ou 12 meses. O problema não está na multiplicação — está no que você coloca dentro do “custo mensal”.
Pense no que compõe os seus gastos do mês. Muitas vezes está incluído ali o dinheiro que você investe todo mês. Faz sentido colocar na reserva de emergência um valor equivalente ao que você investiria? Não. E o dinheiro do bar, do lazer, dos supérfluos? Se você foi demitido, você não vai estar frequentando o boteco. Então esses gastos também não entram na conta.
Sobre o que a reserva deve ser calculada
A reserva de emergência deve ser calculada apenas sobre o custo mensal realmente essencial — aquilo que você precisa para viver caso as coisas apertem. Contas básicas, moradia, parcelas de compromissos já assumidos como imóvel ou carro. Fora disso, você extrai os supérfluos.
O exemplo que o Raul usa deixa isso claro. Uma pessoa que ganha 10 mil e considera esse valor inteiro como base está inflando artificialmente a reserva. Quando você tira os supérfluos e o que seria investido, o custo essencial pode ser, por exemplo, 5 mil. É sobre esse número que a reserva se calcula.
E qual o tamanho? O Raul trabalha com 6 meses desse custo essencial. No exemplo, seriam 6 vezes 5 mil — e não 6 vezes 10 mil.
Por que o cálculo inflado não faz sentido
A lógica é prática. Se você calcula a reserva sobre o salário inteiro, incluindo tudo, o tempo para juntar esse montante vira algo irreal. Guardando 25% da renda, você poderia levar cinco anos apenas para compor a reserva — e ainda estaria travado antes de começar a investir de fato. Uma reserva calculada sobre o custo essencial é atingível e cumpre a função para a qual existe: cobrir o período de aperto sem obrigar você a vender investimentos na baixa.
Vale reforçar o papel da reserva: ela não é para render, é para estar disponível. Fica em investimentos de liquidez e proteção — um CDB de liquidez diária, o Tesouro Selic, ou instrumentos pensados justamente para emergência. Mas a mecânica desses títulos é assunto de outra etapa; aqui basta entender que a reserva mora nesse tipo de lugar seguro.

A regra dos 25%: quanto precisa sobrar antes de arriscar
O terceiro pilar da fundação é a folga no orçamento. O Raul estabelece um piso claro: fazer sobrar pelo menos 25% do salário antes de começar a se expor a ações. Você pode até investir esse dinheiro antes de gastar o resto — não há problema nisso —, mas o mínimo de 25% do orçamento é a referência para começar na renda variável.
Por que esse número importa? Porque se você está conseguindo economizar apenas 10% ou 5%, o dinheiro que você colocaria em ações ainda é escasso, e você está numa fase de aprendizado. Nessa combinação, a chance de uma experiência negativa é grande.
O Raul descreve um cenário recorrente: a pessoa juntou 10 mil reais ao longo de uma vida, alguém indicou uma ação, ela investiu, e do nada uma crise transformou esses 10 mil em 5 mil. Foi assim em episódios como a pandemia e o início de determinados períodos de governo. O investidor mal preparado é forçado a vender na baixa, realiza o prejuízo e sai frustrado do mercado. Ter uma folga real de renda é o que dá fôlego para atravessar essas oscilações sem entrar em pânico.
E quem tem dívidas?
Esse é um ponto em que o próprio Raul revisou sua posição ao longo do tempo. Antigamente ele achava que quem tinha dívida não deveria investir de jeito nenhum. Hoje ele entende diferente: quem tem dívida pode começar a investir, mas não em ações.
Para quem está nessa situação, o caminho inicial é a renda fixa mais simples — um Tesouro Selic, uma caixinha, algo com liquidez — enquanto organiza as dívidas. Ações não fazem sentido nesse momento, porque exigem exatamente aquilo que quem está endividado ainda não tem: dinheiro que pode ficar parado por muitos anos sem precisar ser resgatado.
O raciocínio é de sequência, não de proibição. Primeiro você organiza as dívidas com a ajuda de um investimento seguro e líquido; depois, com a fundação de pé, avalia a exposição à renda variável.

Conclusão: a ordem não é opcional
A fundação não é um detalhe burocrático que se pula por impaciência. Ela é o que separa quem investe de quem apenas aposta. Resumindo o que o Raul defende: aprender a economizar e se organizar financeiramente, montar uma reserva de emergência calculada apenas sobre o custo essencial — extraindo supérfluos e o que seria investido — no tamanho de 6 meses desse custo, e fazer sobrar pelo menos 25% da renda. Para quem tem dívidas, o começo é na renda fixa segura, não em ações.
Só depois de ter isso resolvido é que a conversa sobre ações começa a fazer sentido. Sem essas etapas, o Raul é claro: não faz sentido se expor à renda variável. A pressa em pular a fundação é justamente o que costuma acabar em prejuízo e frustração.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.